sábado, 31 de dezembro de 2011

Uma reflexão sobre o Ano Novo


             

            O Ano Novo é sempre um período que convida naturalmente à reflexão; isso não acontece por acaso: o fim de um ano nos coloca diante de todos os processos cíclicos que dirigem o universo e nossa própria vida. A natureza funciona baseada em ciclos, em seqüências circulares de eventos encadeados que conduzem infinitamente à repetição, ao ponto de partida: a semente germina, a planta desenvolve-se e produz maravilhosos frutos carregados de sementes. A água cai das nuvens na forma de chuva; infiltra-se no solo, alimenta as nascentes dos rios; viaja centenas de quilômetros até desaguar no mar, então evapora e retorna às nuvens, incessantemente.
            E, finalmente, temos os ciclos temporais, que são a própria essência disso que chamamos tempo: a rotação terrestre que produz a alternância de dias e noites; os ciclos lunares, tão importantes para todos os organismos vivos, e o grande ciclo que resume a própria vida: o ano, a magnífica volta que nosso planeta descreve ao redor de nossa estrela solar. Esse balé cósmico de aproximação e afastamento do Sol produz as quatro estações e sintetiza as dinâmicas fundamentais da vida em nosso planeta.
            Iniciar um novo ciclo é uma experiência mágica, é a própria celebração da vida. Os povos antigos, conectados que estavam à natureza, celebravam a magia da alternância dos ciclos com grandes rituais sagrados. O rito tem aqui a função de preparar o espírito, de reunir energias psíquicas para um novo início nessa espiral infinita. Essa é ainda a essência de nossas celebrações, infelizmente tão embrutecidas pela sociedade de consumo: é a comemoração, a expressão da felicidade por chegar ao fim de um ciclo, e a preparação espiritual para um novo amanhecer. Há duas esferas distintas na celebração do ciclo: uma esfera coletiva, onde reunimos as pessoas que nos são queridas; aqui nós devemos comemorar e agradecer pelo apoio mútuo na caminhada; é também o movimento de pedir e receber o perdão pelas faltas cometidas (queimar as dívidas, como dizem alguns). Mas o mais importante é celebrar um pacto sagrado de colaboração para o novo ciclo que se inicia; esse é um ritual de sabedoria e humildade em que reconhecemos nossa verdadeira posição diante do universo: sozinhos somos muito pequenos, mas juntos somos uma extraordinária força transformadora !!!
            A outra esfera é interior, junto à nossa coletividade interna; pois é assim que somos concebidos nas culturas xamânicas: uma soma de forças naturais e poderes espirituais que cooperam entre si para se desenvolverem. Espiritualmente um ciclo significa tarefas a cumprir, objetivos a alcançar. Daí essa tendência inata de fazer balanços no final de ano: é o momento de avaliar como estamos caminhando. Isso era mais fácil em sociedades que tinham valores espirituais definidos; hoje, em que todos os valores são relativos, as crises de identidade são uma constante na vida das pessoas. Não há melhor solução para isso do que voltar-se para dentro. O xamã afasta-se de seu mundo para ouvir a voz dos espíritos; busca o silêncio e a solidão para colocar-se em contato com seu deus interior. Isso explica o poderoso impulso que muitas pessoas sentem nessa época de afastarem-se e ficar em retiro: o fim do ciclo abre uma poderosa janela para contato com o self, com o si mesmo. É o momento de esclarecer objetivos. Sempre devemos ter metas definidas para o futuro; somente assim nossa psique tem energia, quando há um foco para concentrar esforços; quando não sei para onde quero ir não vou a lugar algum...
            No ritual de ouvir o íntimo estamos pedindo a Deus que ilumine nosso caminho. Feliz Ano Novo, irmão caminhante !

domingo, 11 de setembro de 2011

Pérolas de "Comer, Rezar e Amar" (Elizabeth Gilbert)

          
           Eu acredito que há dois ingredientes que explicam o enorme sucesso do livro de Elizabeth Gilbert: o primeiro deles é que a autora vive um problema tremendamente comum nos tempos de hoje, talvez uma das marcas registradas de nosso tempo: o divórcio; muito mais que a separação em si, Elizabeth foi muito feliz em retratar tudo que está envolvido no processo, desde o doloroso processo de amadurecer a decisão de separar, passando pela separação em si e na enorme dificuldade de reestruturar a própria vida depois; só isso seria suficiente para garantir o sucesso do livro. Mas há ainda a questão do vazio existencial e da busca espiritual, outra marca registrada de nossos tempos; somos uma sociedade em crise com nossa religiosidade. Mais ainda: religiosidade é cada vez mais uma questão pessoal, a busca de nossa ligação particular com Deus. Ao descrever sua própria busca a autora é deliciosa: longe dos estereótipos do guru que passa receitas prontas de como chegar ao divino, ela descreve de forma divertida e bem-humorada os altos e baixos de seu atrapalhado caminho até Deus. Eu destaquei aqui alguns pontos desse universo espiritual descritos no livro:

            No início de sua busca, em plena crise, ela descreve uma oração de enorme simplicidade que utiliza ao “conversar” com Deus: Por favor, diga-me o que fazer.
            Em sua busca ela faz contato com a Yoga e os exercícios de meditação; ela é ensinada a meditar no seguinte mantra sânscrito: OM NAMAH SHIVAYA (Eu saúdo a divindade que reside em mim).
            Em sua primeira viagem à Bali, ao pedir a um curandeiro ajuda para experimentar Deus, ele lhe mostra um quadro onde uma figura andrógina, de pé, tem quatro pernas, e no lugar da cabeça há flores e folhagens. Ele lhe diz: Para encontrar o equilíbrio que você busca, isto é o que você deve se tornar: você deve ter seus pés apoiados firmemente na terra, como se tivesse quatro pernas. Dessa forma você estará no mundo. Mas você deve parar de olhar o mundo com sua cabeça; deve fazê-lo com seu coração; dessa maneira irá conhecer Deus.
            Refletindo sobre as palavras do curandeiro ela vê relação com o que os gregos chamam kalos kai agathos: o singular equilíbrio entre o bem e a beleza, o estado de liberdade para o exercício do prazer e da devoção.
            Já na Itália, reflexão sobre um trecho do Bhagavad Gita: é melhor viver seu próprio destino imperfeito do que imitar alguém que viveu com perfeição.
            Elizabeth está na Índia, realizando um retiro num ashram; ao descrever o conceito budista da mente (os pensamentos como um macaquinho pulando freneticamente de um galho para outro) ela menciona o conceito budista de Deus: uma presença; porque ele está presente, está aqui agora. Apenas no presente ele pode ser encontrado, agora é o único tempo possível.
            Ainda no ashram, refletindo sobre sua tendência a ser sempre ansiosa, ela cita uma frase da avó de um amigo: Não há problema no mundo tão sério que não possa ser curado com um banho quente, um copo de whisk e um livro de orações. Moral da história: deixe para se preocupar quando as coisas realmente forem sérias.
            Elizabeth está aprendendo a controlar seus pensamentos; o primeiro passo é observá-los durante todo o dia; ele aprende um exercício em que visualiza sua mente como uma ilha; todo acesso à ilha é feito através de um porto. O objetivo de sua vigília é não permitir que pensamentos negativos desembarquem ali.
            Um colega do ashram, o neozelandês W.J. O´Connell, deixou para ela um texto intitulado Intruções para a Liberdade:
  • As metáforas da vida são instruções de Deus
  • Você apenas subiu no telhado; não há nada entre você e o Infinito; basta ir.
  • O dia está terminando. É tempo de algo que foi bonito transformar-se em algo belo; basta ir.
  • Seu desejo de vir foi uma prece; você estar aqui uma resposta de Deus. Veja as estrelas surgirem no exterior e no interior.
  • Com todo seu coração, peça uma graça, e siga.
  • Com todo seu coração, perdoe ele, perdoe a si mesmo, e siga.
  • Veja o calor do dia tornar-se o frescor da noite, e siga.
  • Quando o karma de um relacionamento se realiza, apenas o amor permanece. É seguro.Siga.
  • Quando o passado passar por você, deixe-o ir. Em seguida desça e comece o resto de sua vida com grande alegria.

Ditado balinense: bhuta ia, dewa ia (o homem é um demônio, o homen é um deus)

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

A Arte de Meditar (Matthieu Ricard) - Sinopse


O objetivo da meditação é transformar-se interiormente, treinando a mente; a modificação de nossa percepção das coisas transforma a qualidade de nossa vida. 
Também podemos definir meditação como o treinamento para desenvolver qualidades fundamentais, como o amor altruísta; não é um exercício egoísta; nossa motivação para a transformação interior é ter capacidade de ajudar a transformar o mundo. Meditação em sânscrito é BHAVANA (cultivar); em tibetano GOM (familiarizar-se).
Estudos científicos realizados em Princeton e Harvard demonstram que a meditação influencia na neuroplasticidade cerebral, produzindo reorganizações estruturais e funcionais no cérebro. Períodos de 8 semanas de meditação (30 minutos diários) reforçam o sistema imunológico, diminuem a pressão arterial, melhoram a atenção e são eficazes em tratamentos de depressão e ansiedade.
O foco da meditação é permitir a percepção diferenciada; uma vida repleta não é feita de uma sucessão de sensações agradáveis, mas de uma transformação na maneira pela qual nós compreendemos e atravessamos os acasos da existência. O treinamento da mente permite não somente combater as toxinas mentais, como o ódio e a obsessão que envenenam literalmente nossa existência, mas também adquirir melhor conhecimento sobre como a mente funciona e uma percepção mais justa da realidade.
A mente não é uma entidade, mas uma onda dinâmica de experiências, uma sucessão de instantes da consciência. O propósito da meditação é observar os sutis mecanismos do funcionamento de nossa mente e agir sobre eles. Para isso é necessário desenvolver o poder de introspecção, tornar a atenção estável e clara. É o “controle que liberta”: ser livre é ser dono de si mesmo

Como meditar
Há três passos básicos: atitude analítica, contemplação e transformação interior; e quatro requisitos básicos:
  • Motivação: o firme desejo de despertar (“Que o precioso Pensamento do Despertar nasça em mim, se não o concebi. Quando tiver nascido, que jamais decline, mas cresça sempre.” – Votos de Bodhisattva)
  • Lugar propício
  • Postura apropriada: Lótus (postura do diamante, ou Vajrasana) ou Meio Lótus (postura feliz, ou Sukhasana)
  • Regularidade

O autor propõe quatro temas de reflexão para reforçar nossa determinação em meditar:
  1. O valor da vida humana.
  2. Sua fragilidade e a natureza transitória de todas as coisas.
  3. A distinção entre os atos benéficos e os nocivos.
  4. A insatisfação inerente a um grande número de situações de nossa existência.

            Seqüência de treinamento da percepção:
  1. O mundo que nos cerca
  2. Nossas sensações
  3. O encadeamento de nossos pensamentos
  4. A consciência onipresente obscurecida por nossas cogitações

Meditação para desenvolver a Consciência Plena: observemos o que se apresenta à nossa consciência, sem lhe impor o que quer que seja, sem nos deixar atrair ou repelir. Contemplemos o que está presente diante de nós, uma flor, por exemplo, escutemos atentamente os barulhos próximos ou distantes, aspiremos os perfumes e os odores, sintamos a textura daquilo que tocamos, gravemos nossas diversas sensações, percebendo claramente o que as distingue. Estejamos inteiramente presentes ao que fazemos, seja quando estivermos caminhando, assentados, escrevendo, lavando a louça ou tomando uma xícara de chá. Não há mais tarefas agradáveis ou desagradáveis, pois a consciência plena não depende do que estamos fazendo, mas da maneira como fazemos, a saber com uma presença de espírito clara e tranqüila, atenta e maravilhada com a qualidade do momento presente, evitando acrescentar à realidade nossas construções mentais.

O Caminhar Atento: “Caminhar pelos simples prazer de caminhar, segura e livremente, sem se apressar. Estamos presentes a cada passo que damos. Se quisermos falar, paramos de caminhar e damos toda nossa atenção à pessoa que está diante de nós, ao fato de falar e escutar... Paremos, olhemos à nossa volta e vejamos como a vida é bela: as árvores, as nuvens brancas e a infinidade do céu. Escute os pássaros, sinta a leveza da brisa. Caminhemos como seres livres e sintamos nossos passos se tornarem leves à medida que caminhamos. Apreciemos cada passo que dermos”. (Thich Nhat Hanh)

Há dois tipos de meditação:
  • Calma mental (Shamatha): concentração no objeto; ex.: respiração
  • Visão penetrante (Vipashyna): análise contemplativa.

            Shamatha tem três etapas:
  • Manaskara (atenção no objeto)
  • Smiriti (manter a atenção no objeto)
  • Samprajanna (tornar-se consciente das características do objeto)

            Há ainda a “Concentração Sem Objeto”, um estado de perfeita simplicidade, sem nenhuma construção mental. Volte-se para o interior e simplesmente “conheça”:
            No inicio, nada vem.
            No meio, nada resta.
            No fim, nada parte.      (Milarepa)

            Para o budismo todas as coisas são interdependentes; tudo é relação, nada existe em si e por si. É a chamada “vacuidade da existência própria”. Há uma meditação para a compreensão do conceito de que as coisas, a despeito de sua aparência tangível, são desprovidas de existência última: imaginar a totalidade da rosa e ir gradativamente penetrando em sua estrutura, vendo apenas uma pétala, etc, recuando até chegar a ser um átomo da rosa; onde está a rosa ?
            O autor sugere ainda finalizar os exercícios com uma “dedicação de frutos”, um voto que canalize energias: “que a energia positiva nascida dessa meditação contribua para aliviar o sofrimento dos seres”.

domingo, 31 de outubro de 2010

Mantras

     Mantras são combinações harmoniosas de sons e palavras; são muito populares no Oriente, onde algumas tradições acreditam que podem desenvolver poderes. São uma poderosa ferramenta para concentração e relaxamento; exercícios de meditação com mantras são particularmente agradáveis. Vai aqui uma amostra em forma de música, Jaya Bhagavan (que poderiamos traduzir como "saudações à Deus").

video

Em busca de si mesmo

            Existe muito falatório sobre a razão de ser da Vida, seu real significado e seu propósito; alguns livros são muito inspiradores e a mensagem de alguns mestres tem muita beleza; mas a única coisa que interessa aqui é que um dia a pessoa se dê conta de que deve encontrar estas coisas dentro de si mesma. Qualquer pequena compreensão que a gente extraia lá de dentro sobre a Vida é mais preciosa que todos os livros que já foram escritos sobre isso, pela simples razão de que são estas chispinhas de consciência que vão alimentar as grandes transformações que precisamos operar em nós. E acredite, querido amigo, não existe um verdadeiro caminho de descobrimento interior sem profundas transformações.

            O início de uma jornada interior está normalmente associado com inquietudes e sofrimentos; aquela incômoda necessidade de encontrar respostas é uma grande força que temos a nosso favor; sempre que ficamos satisfeitos com alguma teoria paramos de buscar, nossas certezas são muitas vezes paralisantes. E as dores, ainda que não gostemos de admitir, são importantes também; é muito comum que comecemos a buscar de verdade porque nossas contradições internas nos fazem sofrer enormemente. Há a história clássica de São Francisco, então um jovem opulento em Assis, que teve suas inquietudes espirituais despertadas por uma estranha doença que o cegava durante o dia; ou de Santo Agostinho, que em suas crises existenciais quase se sentia sufocar pelo enorme vazio que carregava dentro de si.
            É uma dinâmica: toda crise produz uma busca por soluções; e depois de perdermos algum tempo de nossas vidas culpando a tudo e a todos, desde nossos pais, nossos chefes, o governo, as ex-namoradas, etc, etc, etc, percebemos então que temos muito mais responsabilidade pelo que ocorre em nossas vidas do que imaginávamos. Então voltamos nossa atenção para do que de fato interessa: as faces ocultas do si mesmo.

            Existe muita teoria sobre o Eu, a psique, o que existe lá dentro, a alma, etc, etc, etc; há um esquema fácil para entender algumas coisas; isso é básico, essa história é muito mais complexa: toda criança vem ao mundo com um precioso aparelho psicológico cheio de riquezas em potencial, isso é fácil de perceber; a pureza espontânea e a magnífica capacidade de aprendizado que toda criança possui são testemunho vivo disso; mas o desenvolvimento deste aparelho é um processo muito complexo, talvez muito mais que o desenvolvimento de nosso corpo físico: neste processo de assimilar os valores que a rodeiam e desenvolver-se, a incipiente psique da criança vai se desenvolvendo na medida de suas possibilidades, construindo soluções para seus problemas imediatos; neste processo a psique fica sujeita a condicionamentos externos e internos; os externos são muitas vezes criados por pais muitas vezes bem-intencionados: reprimir o choro da criança pode criar barreiras para a livre manifestação de sentimentos, por exemplo; é muito comum um processo em que a criança vai fabricando uma máscara com valores aprovados pelos pais; muitas delas vestem esta máscara a vida toda. Um corpo mais magro que o de outras crianças, ou qualquer sinal físico diferente, pode ser o ponto de partida de um complexo de inferioridade.
            A energia consumida por estas construções psíquicas podem muitas vezes impedir o desenvolvimento de capacidades naturais da própria psique; uma excessiva timidez pode ser uma barreira intransponível para um potencial criativo. Estas situações ficam piscando no universo psicológico, pedindo uma solução; são os conflitos internos. Os remédios de nossa sociedade para estas coisas são muito ruins: baseiam-se essencialmente em repressão, em fortalecer travas psicológicas; tornamos-nos construtores de muros, as diferentes partes de nossa psique ficam ilhadas, isoladas.
            É claro que a psique tem suas defesas e muita coisa se desenvolve e germina; muita coisa negativa é naturalmente transformada; todos nós experimentamos alguns momentos especiais em que nos colocamos em contato com aquilo de temos de mais maravilhoso dentro de nós, nossa luz interior.
            E aqui estamos nós chegados à idade adulta; é muito comum que as pessoas se acostumem com estes condicionamentos que foram se formando; não conseguem imaginar a vida sem eles, rotulam de sonhadores os que falam em se livrar dos grilhões interiores; no entanto, querido leitor, lá no fundo há uma voz da consciência gritando por providências: existem valores aguardando para serem desenvolvidos, poderes e capacidades para serem utilizados; nossa consciência está pronta para nos orientar num trabalho assim. Cada um precisa fazer uma escolha neste momento: ou fortalece seus condicionamentos ou se esforça ao máximo para ouvir a voz da consciência.

sábado, 23 de outubro de 2010

Sonhos: Janela para o Autoconhecimento

Este é o resumo da palestra proferida no último dia 22 no espaço Íris:

O Imaginário dos sonhos

            O conteúdo dos sonhos sempre influenciou poderosamente a humanidade; boa parte das revelações divinas dos mais diversos místicos vieram na forma de sonhos. Elementos importantes de nossa cultura, como a música Yesterday, de Paul McCartney, ou os quadros de Salvador Dali, ou ainda o personagem Frankenstein de Mary Shelley, foram produto de sonhos; elem influenciam inclusive o mundo científico: a mais importante fórmula da física moderna (E=mc2), ocorreu a Einstein durante um sonho.
            Durante a noite nossa mente executa uma complexa série de atividades; os sonhos são recordações confusas de todo esse processo; alguns exemplos de atividades registradas em sonhos:

  • Resumo do dia: as recordações do que ocorreu durante o dia ficam armazenadas na chamada Memória Recente (hipocampo); à noite este material é classificado e enviado para a memória propriamente dita (córtex cerebral); neste processo são elaborados resumos e interpretações dos acontecimentos. Estes resumos são produzidos por 3 centros básicos, nossas fábricas de sonhos:

a)     Centro Mental: Responsável pelos processos de raciocínio e pela resolução de problemas. Linguagem racional.
b)     Centro Emocional: Emoções e sentimentos; sonhos com linguagem profundamente simbólica; a intensidade das emoções é registrada em contrastes de luz x trevas, espaços amplos x prisões, leveza x peso; emoções como paixão ou entusiasmo aparecem em cenários ricamente iluminados, paisagens exuberantes e amplas; cenários onde prevalecem o medo ou o ódio são escuros, úmidos, limitados por paredes grossas. O fenômeno de voar em sonhos é comum em produções deste centro, e pode indicar o desejo de sair de uma situação difícil.
c)      Instintivo/Motor/Sexual: Reúne as informações geradas pelo próprio corpo físico; reflete a intensa conexão entre o corpo e a mente. Em seus resumos ele expressa suas respostas às atividades da mente e da emoção.

  • Comunicação entre partes da psique: Nós não somos uma unidade psicológica; somos formados por diferentes eus, diversas partes autônomas que muitas vezes possuem valores contraditórios e podem inclusive umas ignorarem a existência das outras; essa ilusão de unidade psicológica que experimentamos durante o dia é falsa e é muito simples demonstrar isso. Um bom exemplo está nas transformações que experimentamos durante um momento de irritação, quando ficamos “cegos” de ódio e um elemento psicológico carregado de violência assume o controle da máquina humana por alguns instantes. O objetivo de um trabalho de autoconhecimento é descobrir estes elementos e produzir sua integração; apenas uma psique integrada permite que nós utilizemos todo nosso potencial. Alguns exemplos de partes autônomas da psique:

1)     A Criança Interior: espontânea e brincalhona; quando é reprimida torna-se a origem de nossos caprichos.
2)     A representação do Pai e/ou da Mãe: seguem dentro de nossa psique reproduzindo a dinâmica do relacionamento que tínhamos com eles na infância e na adolescência.
3)     O Velho Sábio: um dos arquétipos básicos citados por Jung; representa nossa superconsciência.

  • Mecanismo de Compensação: é uma forma de aliviar as tensões psicológicas produzidas por nosso comportamento repressivo. Nós herdamos isso da sociedade em que vivemos: valores culturais ou religiosos que nos obrigam a adotar certos comportamentos que não são nossa índole natural, como um voto de castidade. Os elementos reprimidos buscam equilibrar a situação expressando-se em sonhos. Isso pode evoluir para uma situação mais complexa, e é um importante indicativo de que alguma coisa deve ser modificada. A repressão é uma ferramenta muito limitada; é melhor substituí-la por comportamentos baseados em compreensão.

Duas dicas para interpretação de sonhos

            O Dr. Robert Hoss propõe seis perguntas básicas para serem feitas no momento da recordação do sonho:

1- Quem eu sou (que aparência tenho)
2- O que faço (que atividades realizo no sonho)
3- O que me agrada no sonho
4- O que me desagrada
5- Do que tenho medo
6- Qual é meu desejo

            O Dr. Robert Johnson, autor da série de livros He, She e We, ensina a dirigir perguntas aos elementos do sonho, pedir que eles expliquem seu significado.
            Nas duas técnicas é importante sentir o próprio interior, incentivar a manifestação de nosso lado intuitivo.

sábado, 18 de setembro de 2010

Sonhos na Mídia

   
A Revista Isto É publicou uma matéria muito interessante sobre novas descobertas a respeito da fisiologia dos sonhos; você pode saber mais neste endereço:

http://www.istoe.com.br/reportagens/99517_POR+QUE+OS+SONHOS+NOS+AJUDAM+A+VIVER+MELHOR

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Sonhos: Janela para o Autoconhecimento

     Este é o tema da palestra que será ministrada na Iris Homeopatia, dia 22 de outubro, sexta-feira, 19:30 hs; o endereço:
     Rua dr. Antonio de Castro Prado, 465 - Valinhos/SP

     A programação de palestras pode ser acompanhada no seguinte endereço:

     O universo dos sonhos é muito vasto e comporta muitas abordagens. O objetivo do tema é enfocar a questão do universo onírico como ferramenta de autoconhecimento; o sonho é o ambiente onde se expressam aqueles valores psicológicos que nós reprimimos por diversas razões (culturais, religiosas, etc.); toda repressão é um impecilho para criar uma totalidade interior. Ou seja, para nós é importante conhecer este lado que queremos esconder de nós mesmos, para usar uma estratégia superior: nos tornarmos conscientes destes valores, compreendê-los e aceitá-los ou transformá-los, conforme o caso. Isso permite o desenvolvimento interior de forma harmoniosa.
     Trabalhar com sonhos envolve ainda aprender algo sobre a linguagem de nosso inconsciente, intuitiva e emocional; identificar o significado de nossos símbolos interiores é o início de uma interessante viagem para dentro de si mesmo, para conhecer aquilo que chamo de Fantástica Fábrica de Sonhos: os "estúdios" onde são geradas essas magníficas produções de nossa psique. Digo isso no plural porque são diversas regiões, algumas especializadas em produções muito específicas, como certos tipos de pesadelos.
     A produção esotérica sobre o tema é muito rica; determinadas disciplinas esotéricas utilizam técnicas de sonho dirigido para desenvolver certas capacidades, ou para propiciar experiências como o desdobramento astral.

     A palestra serve ainda como ensaio para um projeto maior de oferecer um curso básico de Técnicas de Autoconhecimento.